fbpx
O que é produção cultural? Tudo o que você precisa saber para atuar na área

O que é produção cultural? Tudo o que você precisa saber para atuar na área

Livros, músicas, filmes, shows, animações, exposições, histórias em quadrinhos ou quaisquer outras formas de entretenimento não surgem do nada. Por trás de cada obra que chega até você há um misto de criatividade, planejamento e gestão chamado produção cultural.

Apesar de ser uma profissão recente e pouco conhecida no Brasil, a produção cultural é um trabalho como qualquer outro — a única diferença é que o produto final é fruto de um trabalho artístico.

Nesse artigo, falarei sobre o que é produção cultural, quais são suas etapas e como trabalhar com produção cultural independente, através das leis de incentivo e no setor privado.

O que é produção cultural?

Produção cultural é um conjunto de práticas que abrange, mas não se limita a: elaboração de projetos culturais, captação de recursos financeiros, planejamento, execução, coordenação, divulgação, prestação de contas e supervisão dos resultados.

Em outras palavras, é o conjunto de práticas que tem por objetivo transformar uma ideia em um bem cultural conhecido pelo seu público-alvo. 

A pessoa que realiza o trabalho é o produtor cultural, que pode tanto abraçar todas as funções quanto distribuí-las entre profissionais de áreas específicas.

Em projetos pequenos ou independentes, o produtor cultural muitas vezes também é o criador do produto cultural, acumulando assim as funções de criação, produção e divulgação para si.

Aliás, artistas independentes só têm a ganhar ao estudar e compreender os mecanismos da produção cultural. É através desses mecanismos que eles poderão viabilizar financeiramente seus projetos e fazê-los chegar ao público.

Para começar nossa caminhada, vamos conhecer as fases da produção cultural.

Estágios da produção cultural

No Brasil, existem duas formas de classificar as fases da produção cultural. Nos projetos de lei de incentivo que já escrevi (todos no estado do Paraná, utilizando o Sisprofice), essas classificações se fundem. Por isso, decidi abordar ambas e apontar os seus pontos importantes.

Disciplina “Teoria da Ação Cultural”, da USP.

A docente da Universidade de São Paulo Lucia Maciel Barbosa de Oliveira, nos slides da Aula 11 da disciplina “Teoria da Ação Cultural”, define a produção cultural como um sistema dividido em quatro fases:

1. Produção – fase em que se produz o objeto cultural propriamente dito. Ex. preparação do roteiro e filmagens de um filme; escrita e impressão de um livro; montagem de uma peça teatral; etc.

2. Distribuição – fase em que se distribui o produto cultural aos consumidores ou intermediários que o levarão até os consumidores finais. Ex. distribuição de um filme às salas de exibição ou de um livro às livrarias.

3. Troca – fase em que o bem cultural é ofertado ao seu usuário ou consumidor final. Nessa etapa, o acesso ao produto cultural pode se dar por compra, aquisição, distribuição gratuita, participação em algum evento, etc. 

4. Uso – fase destinada à exposição direta e final do produto cultural àqueles a quem se destina e de sua apropriação por parte do público. Enquanto a troca é a mera exposição ao bem cultural, o uso resulta na apreensão ampla e na possível transformação do receptor.

Para a professora, o desenvolvimento da cultura só ocorre quando as quatro etapas acontecem em equilíbrio umas com as outras e encaixam-se plenamente. 

Artigo “Produção Cultural”

Já Linda Rubim, docente da Universidade Federal da Bahia, aponta apenas três fases em seu artigo “Produção Cultural”.

1. Pré-produção – envolve todas as atividades preparatórias para a execução de um projeto cultural. Ex. elaboração do projeto, planejamento, estudos, contatos, curadoria de materiais, etc.

2. Produção – é a execução da atividade cultural em si, o momento de maior complexidade do projeto.

3. Pós-produção – quando acontecem as tarefas de finalização da obra ou do evento cultural. Ex. realização das contrapartidas sociais, prestação de contas, análises dos resultados, etc.

A autora comenta ainda que, quando o produtor é também quem imaginou o projeto cultural, uma quarta etapa deve ser adicionada: o desenvolvimento da ideia para que ela seja formatada em projeto.

Agora que você já sabe as etapas básicas da produção cultural, falarei um pouco sobre em quais áreas ela pode acontecer.

Como trabalhar com produção cultural

Há muito mais no horizonte da produção cultural do que você imagina. A atuação na área é abrangente e tem diversos caminhos que podem ser escolhidos de acordo com o seu projeto.  

Como mencionei no início, o objetivo do trabalho é gerir um projeto, desde a fase da ideia até a recepção e apropriação do produto cultural por parte do público ao qual se destina.

Esse produto cultural pode ser um livro, um filme, uma música, um espetáculo, um podcast, um site, ou qualquer outro projeto que se tenha em mente. Ou seja, tudo começa com uma ideia — e existem três caminhos-base para que essa ideia floresça, seja produzida e chegue ao público final.

Produção cultural independente

O primeiro caminho é o do faça você mesmo (também conhecido como “just do it!” ou “uma ideia na cabeça e uma câmera na mão”). Muitos de nós, artistas, seguimos a toada do bloco do eu sozinho para tirarmos nossas ideias do papel.

Se você já produziu, produz ou sente vontade de produzir seus próprios projetos, você trabalha ou trabalhará com produção cultural.

Por ser independente, você tem muito mais liberdade e controle nas ações de cada uma das etapas que descrevi antes — e, de certa forma, mais responsabilidade nos resultados também.

Todas as decisões estão nas suas mãos. É você quem decide o formato, a periodicidade, a distribuição, o cronograma, a monetização ou não e avalia os resultados. É você também que tem as ideias, que cria, que faz contatos, que divulga e que coloca a mão na massa para fazer o projeto acontecer.

Como produtor do seu projeto caberá a você tomar todas as decisões. E é aqui o momento em que você delimita o seu objetivo ao desenvolver um projeto. O que você quer? Qual resultado espera? 

Pense em respostas simples e objetivas, como por exemplo “quero ganhar X dinheiros” ou “quero divulgar o meu trabalho” ou ainda “quero transformar a minha ideia em um produto e distribuí-la de forma gratuita”. A partir desse ponto, você pode se perguntar como atingirá o seu objetivo e começar um planejamento.

A liberdade de ser um artista independente nos ajuda tanto quanto nos atrapalha. Por isso, estar comprometido com o propósito do seu projeto e ter objetivos claros te ajudará a concluí-lo de forma satisfatória. Depois disso, uma boa divulgação fará com que o resultado do projeto finalmente encontre o seu público.

Como muitas vezes na produção cultural independente a remuneração do produtor-criador é baixa ou inexistente, é mais complicado ver a função do produtor separada da figura do criador.

Leis de incentivo à cultura

O segundo caminho possível é produzir projetos através dos mecanismos de renúncia fiscal e das leis de incentivo à cultura. No Brasil, existem leis diferentes em níveis (municipal, estadual e federal), divididas em duas categorias:

1. Mecenato — quando o produtor tem um projeto aprovado pelo gestor público de cultura (fundação, secretaria, etc) e recebe uma carta que o permite contactar empresas interessadas em patrocinar o projeto via renúncia fiscal. Essa modalidade possibilita a inscrição de projetos com valores mais elevados, mas o acesso ao dinheiro depende do contato e da aprovação do patrocínio pelo setor privado. 

2. Fundo de apoio à cultura — quando o produtor, após ter um projeto aprovado, recebe o dinheiro para executá-lo do próprio gestor público cultural, sem envolvimento do setor privado. Nessa categoria, o teto para a inscrição dos projetos costuma ser baixo.

Ao escolher esse caminho de produção cultural, fica mais fácil distribuir funções e até mesmo ter uma pessoa designada apenas como produtor ou coordenador do projeto. 

No entanto, uma das habilidades mais importantes da produção cultural através das leis de incentivo à cultura é a de escrever bons projetos. Ter uma boa ideia e saber escrever bem ajudam, mas é imprescindível ser conciso e claro ao explicar todas as fases do projeto para que os pareceristas compreendam a ideia e dêem boas notas.

Outra habilidade útil é a de saber montar orçamentos consistentes e que justifiquem de forma clara o valor que está sendo pedido em cada rubrica (gasto) do projeto.

Apesar de ser um caminho atrativo — afinal, muitas vezes é aqui que o dinheiro está — é um campo bastante competitivo e com uma curva de aprendizagem que pode demorar anos para ser vencida, o frustra muitos artistas e produtores culturais.

Caso escolha investir suas energias aqui, saiba que terá que lidar com burocracias, avaliações (boas e ruins) dos pareceristas e a frustração de ter seus projetos desclassificados. 

Produção cultural no setor privado

O terceiro caminho é realizar a produção cultural dentro de uma empresa ou uma ONG. Nesse caso, dificilmente quem tem a ideia é a mesma pessoa que a produz.

Existem duas formas de se trabalhar com o setor privado: como funcionário ou como freelancer. Algumas empresas possuem um setor dedicado para a área cultural e contratam profissionais responsáveis por produzir shows, eventos, mostras e demais atividades que estejam relacionadas com suas marcas. É esse setor que fica responsável também por contratar freelancers, quando necessário.

A vantagem de trabalhar para o setor privado é óbvia: o produtor cultural é remunerado, e muitas vezes bem remunerado. No entanto, o profissional terá que se alinhar aos valores da empresa — sejam eles quais forem — o que, dependendo do caso, pode significar uma desvantagem.

A questão é que, infelizmente, poucas empresas se preocupam em manter um setor cultural por causa das leis de renúncia fiscal. Por que ter profissionais trabalhando com cultura se eu posso pagar, através do mecenato, para que minha marca seja exibida em ações culturais diversas? Assim, ao invés de ter um setor cultural, a empresa entrega a decisão sobre quais projetos serão patrocinados ao setor de marketing.

Isso nos leva a um outro tipo de empresa: as de produção cultural. A maioria delas é especializada nas áreas de audiovisual, música e teatro e dependem da figura do produtor no seu dia-a-dia. Mas, eis o impasse: muitas dessas empresas conseguem dinheiro através dos mecanismos de renúncia fiscal proporcionados pelo mecenato, tornando o trabalho ainda mais complexo. 

Produção cultural é um trabalho como qualquer outro

Apesar da grande carga de trabalho, a produção cultural enfrenta o mesmo desafio de toda a cadeia criativa: ser remunerada de forma justa. 

Se trabalhar com leis de incentivo à cultura ou no setor privado pode ser complexo, limitador e burocrático, trabalhar com produção cultural independente é exaustivo e mal remunerado (ao menos no começo). 

No entanto, produção cultural é um trabalho como outro qualquer. Um trabalho ao qual dedicamos horas e horas de nossas vidas. Um trabalho com altos e baixos. Um trabalho que aprendemos no dia-a-dia, entre erros e acertos. Um trabalho que fazemos porque sabemos a importância dele.

Se você, assim como nós da Têmpora Criativa, gosta de tirar as ideias do papel e colocá-las no mundo, assine o Lambrequim, nossa newsletter sobre arte, cultura e como ser um artista independente nesse mundo em constante mudança.

A newsletter é semanal, gratuita e nós adoramos falar sobre produção cultural por lá. É só preencher o formulário abaixo e esperar, que quarta-feira cedinho chegará uma nova edição até você.

Receba a newsletter Lambrequim no seu e-mail

Leia nossos artigos & novidades

Conheça as publicações da Têmpora Editora